sexta-feira, 24 de julho de 2015

Carros, Rali VM e tolerância de ponto,

Carros, Rali VM e tolerância de ponto,
A propósito do grande evento que aí vem, o Rali Vinho Madeira de 2015, esta semana andou uma série de gente num frenesim a querer saber se haveria tolerância de ponto na sexta-feira dia 31 de Julho.
Desde já digo, escusam de comentar e de criticar a minha posição, e peço desculpa a quem muito aficionado é a estas coisas de bólides e corridas, mas considero insensato atribuir uma tolerância de ponto para que toda a função pública acompanhe o rali.
Já produzimos pouco, já trabalhamos sem objectivos, sem critérios rigorosamente definidos, sem motivação e sem entusiasmo. Estamos na Europa (lá bem no fim do fim….) mas não usufruímos salários mínimos equivalentes a outros países daquele grupo. O ser humano reage a emoções, não havendo troca, compensação justa e equitativa, porquê se esforçar, porquê trabalhar com brio profissional e bem. Qual a mais-valia, qual o proveito, qual o retorno de um trabalhador exemplar?
São poucas as pessoas que por uma questão de atitude, de consciência e de postura, põem em tudo o que fazem o seu melhor, esmeram-se, fazem um bom trabalho porque assim tem de ser feito. Está em causa a própria pessoa, a sua integridade, e o seu bom desempenho.
Seja como for, para mim não é consensual, uma ausência ao trabalho, por motivos de uma prova automobilística.
Mas as pessoas opinam segundo as suas convicções e as coisas que lhes dão satisfação e contentamento e de facto já escrevi antes e volto a repetir não sou fã de bólides.
Não gosto de conduzir, nem de estacionar carros, nem tão pouco de fazer inversão de marcha. Apenas conduzo por necessidade e por uma questão muito importante na minha vida, a minha independência.
Nunca teria um carro descapotável, porque nunca saberia se olhariam para o carro ou para a pessoa que o conduz.
Também nunca teria um carro vermelho, nem necessito equacionar os motivos.
Gostaria de às vezes ter um bom Jeep, que jeito me daria?! Cruzo a Avenida do Mar quatro vezes por dia e assisto a cada cena, uma mais deplorável que a outra.
As cabeças vão ziguezagueando, lado esquerdo, lado direito, abre vidro, fecha vidro, endireita o espelho, faz pisca e não muda de marcha, pára no semáforo amarelo, quando estamos cheias de pressa, etc, etc…
Agora que estamos no Verão anda tudo mais lento, a cidade enche-se de continentais, espanhóis e emigrantes, que ao invés de conduzirem, passeiam a família, mostram orgulhosamente o quanto evoluiu a terra que os viu nascer.
A Avenida vai cheia de miúdas giras, mais despidas e mais atraentes, como o calor assim obriga. Na nova Praça do Mar estendem-se os putos a praticar skate, improvisam plataformas e executam manobras de baixos e altos graus de dificuldade. Exibições fantásticas, cujos cenários por vezes embaraçam o trânsito.
Mesmo não gostando de carros e porque há coisas e há pessoas a quem não podemos dizer que não, aqui há muitos anos quando os meus miúdos eram pequenos participei através do Infantário que eles frequentavam num rally paper.
Ia morrendo de enjoo, decoramos o carro todo, o tema era os planetas, e o carro tinha a Lua, o Sol, Marte, Júpiter e Plutão. Desempenhava o papel de co-piloto e tinha a incumbência de além de transmitir as mensagens padrão, completar as respostas, seguindo as pistas, olhando para os papéis, escrevinhando, entrando e saindo do carro à procura de coisas e de objetos. Cheguei heroicamente ao fim e bem colocada porque não gosto de perder, nem a feijões.
Espero muito sinceramente que os madeirenses aproveitem o primeiro fim de semana de Agosto, desfrutando do rali, e já agora só para que fiquem a saber o meu carro é um simples Renault Clio, cinza prata.

24-07-15

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Entre um caminho real e um Jardim Tropical,

Entre um caminho real e um Jardim Tropical,
Iniciamos o percurso junto ao restaurante do Poiso, com um céu azul e uma temperatura quente, a prometer um dia escaldante.
Percorremos de acordo com a acessibilidade possível, a antiga Estrada Nacional nº 24, Ribeira das Cales e Pico Alto. Pelo caminho visitamos o Centro de Receção do Parque Ecológico do Funchal, onde decorria numa sala contígua à receção uma formação de técnicos do mencionado parque. Ali se desenvolvem projectos no âmbito da conservação da Natureza, da educação ambiental e do recreio e lazer dos visitantes.
Descemos, e viemos ter ao Terreiro da Luta. Fez-me uma certa confusão terem deslocado a fonte de pedra, que sempre esteve no meio do caminho, para o lado esquerdo. Não sei se foi exigência dos transeuntes, dos carros de turismo, ou das viaturas que gostam de se aventurar, não percebi…
O trajeto do sábado passado foi o caminho real Poiso/Monte/Funchal e foi bastante interessante quer pelos espaços frescos, recantos, e variedade da vegetação, quer ainda pelas propriedades e quintas que fomos encontrando até Santa Luzia.
Na Igreja do Monte, atrevi-me a subir até ao sino, vislumbra-se uma vista magnífica sobre o Funchal. Não obstante, fiquei um nada entristecida pela falta de manutenção relativamente ao coro e ao restauro das pinturas no tecto do templo. Sendo um dos locais de grande culto da região, motivo de um dos maiores arraiais em honra de Nossa Senhora do Monte, não se compreende tamanho desvelo, compensa os quadros recentemente restaurados.
Já se encontrava inicialmente agendado pelo Nekas uma visita guiada ao Jardim Tropical Monte Palace, um dos Jardins Botânicos mais bonitos do mundo (galardão atribuído pelos sites Tripadvisor e European Best Destinations).
O jardim pertenceu a um cônsul inglês, foi vendido a um português que após o seu falecimento e por a família não ter perpetuado a obra, foi adquirido pela Instituição Financeira Banif (ex- Caixa Económica do Funchal). Em 1987 foi vendido ao empresário Joe Berardo, que o doou à Fundação José Berardo (Instituição Particular de Solidariedade Social).
Ocupa uma área de 70.000m2 e alberga uma vasta coleção de arte, flora e fauna. Entramos pela porta norte, junto às Babosas, e cruzamos de imediato com umas oliveiras milenárias, que foram trazidas do Alqueva. Mais à frente um conjunto de painéis ilustrando alguns factos mais importantes sobre a História de Portugal, outros painéis de azulejos do Séc. XV ao Séc. XX, janelas manuelinas, nichos, brasões e arcos cruzavam as alamedas dos jardins.
No museu visitamos um espaço de escultura contemporânea do Zimbabué, com obras da primeira geração de artistas de Tengenenge. Arte africana em pedra, de artistas outrora desconhecidos e hoje já com bastante notoriedade. A guia que nos acompanhava tinha a lição muito bem estudada, dizia “o Senhor Comendador adquiriu”, “o Senhor Comendador comprou”, “o Senhor Comendador sempre que vem aos jardim (acontece de 2 em 2 semanas), lembra-se de fazer algo de novo, uma cascata, um repuxo ou um banco”. Seja através de mecenatos, fundações, e outras mais instituições financeiras e de “solidariedade”, é certo que o Senhor Comendador contribui e zela pela natureza, pelo meio ambiente e pela nossa Laurissilva (floresta classificada pela UNESCO como Património Mundial Natural).
Seguimos para uma sala que continha um excelente acervo de Minerais e Gemas provenientes do Brasil, África do Sul, Zâmbia, Perú, Argentina e América do Norte. As pedras encontram-se expostas em cavidades, simulando o próprio ambiente de formação dos minerais. Uma profusão de cores e brilhos desde o seu aspecto mais bruto até á forma mais polida e sofisticada, usada para jóias e objectos de adorno pessoal.
Os jardins têm uma influência oriental (cultura chinesa e japonesa), com símbolos característicos, como o dragão, budas, pontes e bancos. Possui também vários lagos, com peixes Koi, e outras variedades de peixes, grandes e pequenos, brancos, prateados, vermelhos e laranjas, cisnes brancos e patos.
A vegetação é exuberante e com plantas exóticas, Cicas, Próteas, Azáleas, Orquídeas, Sequóias, Clíveas, e no espaço da flora endémica madeirense, observamos o Loureiro, Vinhático, Barbusano e Faia.
À saída e já junto à casa principal aprecia-se uma coleção de porcelanas, terrinas, potes, pratos e travessas.
Já em plena rua, e fora daquele arvoredo, daquele ambiente de quase floresta pura, é que nos apercebemos o quanto destilámos lá dentro, fez-se jus a um ambiente tipicamente feminino, como diria uma colega do grupo, no seu comentário cáustico, “meninas o ambiente era demasiado vaginal, quente e húmido”.
E porque da cultura também faz parte tudo aquilo que é histórico, que está impregnado nos nossos hábitos, usos e costumes, e porque nem tudo deve ser consumido única e exclusivamente pelo turista que nos visita, e esquecendo ou pondo de lado a nossa “serventia”, e humilde subserviência, fechei os olhos, respirei fundo e deixei-me conduzir por dois “carreiros” dentro de um típico cesto de vimes.
Foi mesmo o culminar de uma experiência única que, se não fosse naquele momento, não se repetiria nunca.

02-07-15

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Levadas, regadios, águas e poços.

Levadas, regadios, águas e poços.
Andava eu ensimesmada nos santos populares e a recordar os tempos de estudante e as escapadelas a Alfama e à Mouraria com o meu primo e umas quantas amigas da época quando dei por mim a fazer a Levada dos Brasileiros terminando com um almoço de semilhas, atum salpresado, feijão e massarocas. É óbvio que não substitui a sardinha assada, a salada de pimentos e os manjericos, mas na verdade, aqui nesta terra, nunca foi hábito comemorar o Santo António, sempre foi mais tradicional celebrar o São João, pelo menos era assim na minha família.
Andamos pela zona alta do Porto Moniz (Levada do Brasileiro), Lagoa do Chão do Bardo, Pico Roseira, Portas da Vila e Monte Pico. Curiosamente apanhamos um dia de céu azul, e sol, límpido, como muito raramente acontece ali pelos lados da Santa.
Estas caminhadas para além de se terem tornado num espaço de “desintoxicação citadina” passaram a contemplar outras áreas, tais como aulas práticas de botânica, cultura local, usos e costumes, momentos de bem-estar e prazer e de conversas de enriquecimento intelectual.
Eu que não distinguia orégãos de carqueja, já vou conhecendo algumas plantas aromáticas, flores e algumas árvores que compõem a nossa Laurissilva.
Conhecem-se pessoas novas, agradáveis, simpáticas, gente descontraída e desempoeirada.
A propósito neste sábado entabulei uma conversa interessante com um rapaz, que aos 11 anos foi estudar para o seminário e frequentou até o 4 ano de Teologia, depois considerou ser mais importante saltar o muro e ficar a viver a vida deste lado de fora e por aqui ficou até agora. Falamos muito ao de leve da religião, da fé, da igreja, dos mitos da igreja católica, e em especial de algumas posições tomadas pelos órgãos máximos da igreja aqui na região, etc, etc.
Alarguei os meus parcos conhecimentos sobre o sistema de regadio, os tanques de rega, a divisão da água e o giro.
A constituição geológica e a topografia da Ilha não favorecem a constituição de reservas superficiais de água. Não existem muitas lagoas naturais e as águas da chuva ecoam rapidamente para o mar.
Desde sempre a gestão da água, o decorrer do giro, gerou conflitos e disputas entre os agricultores, regantes e levadeiros. O desvio intencional e o roubo de água constitui um ofensa e mexe demasiado com os valores e a integridade de quem trabalha a terra e dela vive, e dela faz o seu rendimento, e dela alimenta a sua família. Por isso colocava-se um pau ou uma vara pequena entre as duas margens da levada, justamente para balizar a divisão da água e para determinar com precisão a quantidade de água que cabia a cada um nas horas de giro. Quando o nível da água subia além da marcação estabelecida pela vara era sinal de que alguém estava roubando água. O nível da água teria de se manter sempre pela baliza/vara. Então a regra era, “enquanto uns regavam outros vigiavam”.
Ali pela aquela zona da Santa do Porto Moniz (e áreas circundantes, Pombais, Cabo Salão, Pico Alto, etc.) existem cerca de 48 poços com 2, 3 ou mais donos, cada um com uma corrente de água diferente. O balaruco é o sítio por onde sai a água do poço e os tornadoiros é o encontro de levadas (onde partem e se dividem as águas).
A posse de poços dava então aos agricultores uma capacidade de prestígio, criava rivalidade e competição entre todos os que dependiam da terra e precisavam da água como um bem de mercado e com um preço alto.
Passei também por uma plantação de amendoins, é uma planta herbácea, de caule pequeno, com flores pequenas e amarelas. O fruto é uma vagem.
No regresso demos um salto até à Casa Velha, uma casa pequena, toda em pedra, mas com uma confortável área de terreno na parte lateral e traseira. A casa precisa de obras e restauro, aguarda por alguma folga financeira do seu proprietário ou por alguma boa ação de um qualquer mecenas em prol das tradições e reconstruções rurais. Tem um forno peculiar, a porta de entrada é quadrada em vez da habitual que é oval, o chão ainda é de terra batida e tem um pouco de tudo o que é tradicional madeirense, uma camilha, candeeiros a petróleo, recipiente em madeira para fazer pão de casa, etc, etc.
Já mesmo sem estar à espera ainda visitamos o “Tribunal Bar”, um tasco junto à Câmara Municipal, onde se acaba por decidir o que não foi consensual na reunião que decorreu no edifício do lado.
Ainda fiquei a saber que em dias como aquele em que o mar está tão calmo, pescam-se cracas no Ilhéu Mole (frente à Vila do Porto Moniz), eu que até então imaginava que cracas, só nos mares dos Açores.

18-06-15

terça-feira, 9 de junho de 2015

Dois mundos,

Dois mundos,
Eram aproximadamente 20h30m de um primeiro sábado do mês de Junho, vinha a passar nas traseiras do Mercado dos Lavradores e deparo-me com uma fila de gente, maioritariamente homens, de cabelos grisalhos, barba por fazer, roupa desconjuntada, rostos amargurados e olhares turvos. Em fila aguardavam estoicamente a refeição quente que lhes seria servida pelos voluntários da CASA, um gesto de solidariedade social apoiado pelos Hotéis Porto Bay e Dorisol.
Mais à frente, na porta principal do mercado, à entrada outra fila, desta feita para uma Ceia dos Santos Populares (angariação de fundos para o projecto “Ferias Divertidas”).
Dois mundos, dois eventos, causas idênticas (solidariedade social), mas na sua essência bem diferentes uma da outra.
Gosto daquele acontecimento, descontraído, de arraial, comida típica da época (atum salpresado, semilhas com casca, batata doce, feijão e maçarocas), da cor, da boa disposição e do ar despretensioso das pessoas.
Acabei por encontrar um vizinho amigo, irmão de uma amiga da minha infância. Veio cumprimentar-me, e felicitou-me pelos textos que tenho andado a escrevinhar, disse que os tem lido e gosta imenso. Sei que passou por uma grande perda, recentemente, mas achei que não era oportuno referenciar o assunto e nada disse. Afinal o ambiente era de festa e descontracção.
Lembrei-me da mãe dele, minha vizinha, uma senhora que teimosamente fez durante muitos anos uma resistência à vida, acamada durante algum tempo, foi adiando a sua partida, para surpresa, até da própria família. Uma força da natureza, matriarca, mãe de 11 filhos, exigente, e lutadora.
No dia do meu casamento, bateu-me à porta para me dar parabéns e oferecer-me uns versos feitos por si e um raminho de cravos. Foi um gesto simbólico que nunca esqueci.
Hoje, a casa da senhora encontra-se à venda e inexplicavelmente no quintal existe ainda um roseiral. Curiosamente estou a falar de uma casa semiabandonada onde não reside ninguém à uma data de anos. A paixão pelas flores, rosas, cravos, azáleas, orquídeas e outros vasos que ela disponha pelas escadas acima era notória.
O jantar esteve animado, com uma banda de música, um grupo de música tradicional, uma fadista e dois adolescentes, que apesar de muito novos prometem um bom trajecto pelo meio musical.
Na saída, esperava-me uma noite cálida e uma cidade deserta, desci até ao parque de estacionamento do Almirante Reis e deparei-me com mais uma cena de um qualquer submundo, um jovem, toxicodependente a ser corrido fora do parque pelo responsável do mesmo.
Cambaleando de um lado a outro, exibindo uma verborreia gritante, uma mão segurava as calças roçadas que lhe vinham já entre pernas e a outra mão agarrava uma garrafa de um etílico sem rótulo e lá se foi ajeitando para um canto de uma parede cuspida com uma tinta descolorida e bolorenta, ainda olhando de soslaio para trás  e insultando o rapaz do parque.
Confortavelmente entrei no carro e vim para casa pensando que a vida nem sempre é justa, que o sol brilha e aquece mais uns que outros e que muitos permanecem por um longo tempo na penumbra e na bruma, não existindo nenhuma luz para que possam vislumbrar, mesmo que seja ao fundo de um túnel.


09-06-15

terça-feira, 2 de junho de 2015

Amizades de uma vida inteira,

Amizades de uma vida inteira,
Este texto vem a propósito de um telefonema que recebi na semana passada de um grande amigo de infância acerca de uma cronica aqui publicada intitulada “Jasmineiro”. Confesso que no início do telefonema receei e não sabia bem se a receptividade era boa ou má, descontraí de facto quando me apercebi que até tinha sido simpático da minha parte fazê-lo regressar à sua infância e a uma nostalgia de tempos de outrora vividos numa Madeira bem diferente do que hoje é.
Não falava com este amigo há já longo tempo, não que me tivesse zangado, mas pelas circunstâncias da vida, amigos incomuns, trajectórias e estilos de vida diferentes, foram-nos separando.
E aqui vou entrar numa esfera que muita tinta tem corrido e existem varias opiniões, os amigos, as amizades de uma vida e a família. Serão os amigos mais importantes do que a família? Perdoem-me os que não vão concordar comigo, mas a família para mim está em primeiro lugar. Já escrevi em outros textos que, “a família não se escolhe”, “é a que se tem, quer se goste ou não”, os amigos, pelo contrário, escolhem-se e ficamos com eles uma vida inteira, ou vão uns e vêm outros e outros que entretanto se foram, voltam e ficam, outros ainda foram e não regressam mais.
As pessoas zangam-se por futilidades, por o “diz que disse”, porque “quem conta uma história acrescenta um ponto” e por orgulho ferido, por personalidade vincada e acutilante, raramente fazemos as pazes, reconhecermos e voltarmos atrás para invocar um pedido de desculpas é cada vez menos comum.
Ao longo dos anos, quer-me parecer que isto é um processo mais ou menos natural, ganha-se uns, perdem-se outros, mas existem alguns, poucos seguramente, que nunca se perdem, nem tão pouco se esquecem.
Eu não sou propriamente a pessoa mais pacífica deste mundo, e obviamente já passei por esta fronteira de perder alguns amigos, claro que quando os revejo sinto um claro desconforto, mas não há nada que o tempo não apague, ou não há nada que o tempo não leve, ou ainda a verdade vem sempre ao de cima e a mentira tem perna curta.
Às vezes também penso para não me auto culpar, se não ficaram, se não resistiram como meus amigos é porque não tinha de ser ou é porque não fui merecedora dessa amizade ou ainda porque não eram mesmo meus amigos. Seja como for, o que lá vai, lá vai, não podemos agradar a gregos e troianos e eu de facto, confesso, tenho mau feitio.
Existem vários tipos de amigos, é certo, e eu aqui não vou enumera-los, vou apenas falar daqueles amigos que me acompanham hoje.
Os meus amigos do colégio, que os encontro muito raramente, mas que sei quem são, os do Liceu, da Faculdade, os dos escuteiros, os da infância, vizinhos, filhos dos amigos dos meus pais, os de varias fases da vida e que permaneceram até agora, outros amigos que fiz por influência dos meus filhos, quer pela escola, quer pelas actividades desportivas onde estavam inscritos, os da praia, das férias, das caminhadas, os do trabalho e outros que eventualmente ainda possam vir a surgir.
Os do trabalho, eu costumo dizer que não bem amigos são antes, colegas. Porque os do trabalho queiramos nós ou não, temos de nos relacionar o mais cordialmente possível. Passamos metade do nosso dia-a-dia no trabalho, se não tentamos ter uma relação minimamente saudável e sofrível com todos, muito dificilmente estamos de bom humor no nosso local de trabalho. Contudo, existem excepções à regra, pois no trabalho tenho até alguns bons amigos.
Por a família estar em primeiro lugar, por ter uma família grande, por nos podermos ainda reunir todos em casa dos meus pais, é raro não haver um almoço de Domingo. A mesa vai ficando cada vez mais pequena, sãos os filhos, os netos, os bisnetos, mais os (as) namorados (as). O meu pai fica sempre contente por ter a casa cheia, ele quer pessoas lá em casa, acresce-lhe movimento, vida.
A minha família é como qualquer uma família, não é perfeita, é barulhenta, falamos todos nuns decibéis acima do normal, discutimos uns com os outros, relacionamos melhor com uns do que com outros, é tudo uma questão de afinidades e personalidades mais compatíveis que outras, mas temos valores, princípios e respeito.
Somos todos diferentes, na personalidade e forma de estar na vida, fisicamente existem duas muito parecidas, todos um pouco mais ao lado do pai, a mãe ficou com a beleza só para ela, não distribuiu equitativamente pelos filhos.
Uma das diferenças entre os amigos e a família é que apesar de sermos todos diferentes uns dos outros, na sua essência, somos iguais. Podemos discutir e até zangar-nos mas o elo de ligação não se quebra, e sempre e quando é preciso estarmos lá, inquestionavelmente estamos e damos a nossa força a nossa presença.
Nunca deixamos um irmão só, nunca deixamos de apoiar num momento mais difícil, nunca por nunca ser um de nós se sentirá à margem do seu núcleo familiar.

02-06-15

domingo, 31 de maio de 2015

Irmãos

Irmãos.
O calendário assinala hoje dia 31 de maio o dia dos irmãos. Lá em casa somos seis, 4 raparigas e 2 rapazes.
Não vou falar dos irmãos no que toca às suas personalidades e maneiras de ser, por uma razão óbvia, estamos todos cá e não quero ferir suscetibilidades, dando preferência a uns mais do que a outros. Vou então referir-me na generalidade e num contexto global.
Todos temos boas qualidades humanas porque fomos educados sobre valores bem diferenciados.
Cresci com eles, mais perto de uns, mais longe de outros. Partilhei desde criança, afetos, brincadeiras, cumplicidades, zangas e brigas.
Crescemos numa família onde o patriarca era a figura major. A matriarca sem ser uma pessoa apagada imponha-se pela sua presença elegante e reservada.
Sendo eu a mais nova, das raparigas, fui desde muito cedo uma menina mimada, mais acarinhada pelo pai, pelo facto de a mãe estar demasiado ocupada a cuidar de uma avó e de uma bisavó e ainda de um irmão mais novo, que desde a sua nascença requereu um pouco de mais atenção.
Ainda tenho todos os meus irmãos e com eles partilho momentos de família, comemorando algumas datas de festividade. Tenho normalmente mais ligação a uns do que a outros, atendendo á proximidade na forma de ser de cada um deles, não esquecendo que para tudo o que é preciso somos irmãos, filhos dos nossos pais, o mesmo sangue corre-nos nas veias.
A minha infância com os meus irmãos no que toca a brincadeira foi um pouco incomum, não brincamos muito, a diferença de idades não ajudou.
Lembro-me daquelas disputas banais, do lugar do sofá, do lugar à mesa, das tórridas discussões sobre quem arrumava a cozinha, dava cera no chão, puxava o lustro, lavava os tapassóis e as janelas ou regava as flores do jardim.
Lembro-me de sair à socapa com a roupa da irmã mais velha para o Liceu. O importante era fazer uma boa figura e levar roupa nova. De discutir com a minha irmã mais velha e dizer que não queria dormir com ela na mesma cama, (na época ela fazia um tratamento de pele para o acne na face e o creme que aplicava à noite cheirava mal).
Lembro-me de me incompatibilizar muito com o meu irmão mais velho, porque ele era um chato, um “engomadinho”, ia para o meu quarto tirar-me o secador e a escova de cabelo para se aprumar.
Lembro-me de sentir ciúme dos namorados das minhas irmãs, não que tivéssemos muita convivência entre nós, mas era menos tempo que elas estavam em casa e me faziam companhia.
Lembro-me de discussões tórridas com o meu irmão mais novo, cadeiras pelo ar, facas atiradas, até uma vez quase abrimos uma porta a meio. Eu como não consegui medir forças com ele, atirava as coisas, era a maneira mais prática que achei para me defender.
Ter irmãos para mim sempre significou partilha e companhia, partilha porque nas raparigas a roupa ia sempre rodando da mais velha até a terceira, graças a deus, como eu era a quarta e com uma diferença de 10 anos, fui uma sortuda nunca vindo a herdar essas peças. A minha roupa era sempre nova. Valeu-me essa essa pequena nuance.
Companhia, porque era inevitável, tínhamos dois quartos, um para as raparigas e outro para os rapazes. Companhia na mesa da cozinha quadrada, de madeira e com um tampo em fórmica vermelho. Companhia para me levar à escola, para fazer os trabalhos de casa, e alguma companhia do meu irmão mais novo para andar de bicicleta e brincar aos cowboys e aos polícias e aos ladrões.
A família é a primeira escola para a partilha, para a generosidade e para a solidariedade.
A família é isto, o primeiro espaço onde chegamos, mas não escolhemos.
Aos meus pais, que ainda nos fazem companhia, agradeço sobretudo os valores que nos transmitiram, a honestidade, o carácter e a coragem do pai, a sensibilidade a discrição e a doçura da mãe.

31.05.17



quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Casa Branca,

A Casa Branca,
No sábado passado estive no primeiro encontro regional de pedestreanismo. Iniciamos a caminhada na Encumeada, Fajã da Égua e Chão dos Louros. Terminado o evento os vários grupos de caminhantes reuniram-se no Chão dos Louros para confraternizar. Apelou-se à conservação dos trilhos, conservação das levadas e identificação de algum património. Numa região cuja fonte principal de receita é o turismo é inaceitável a apresentação dos nossos percursos e a degradação constante das nossas serras e montanhas.
Ao regressar ao Funchal fui convidada por uma colega do grupo para ir visitar a sua casa e tomar um copo, mesmo no final da tarde. A principio ainda recusei, alegando a hora ser tardia, mas depois convenceram-me e ainda bem que aceitei o convite.
Assim que cheguei á Casa Branca, uma casa no topo do Ilhéu de Câmara de Lobos, lembrei-me de um concerto ao luar que há uns anos atrás assisti naquele jardim com o grupo Madredeus, uma coisa quase surreal e mal entrei na casa pensei se o Churchill ainda fosse vivo talvez alguém o teria convidado para ali colocar o seu cavalete e desenhar a baía de Câmara de Lobos.
Abaixo da Casa Branca e aos lados um casario descoordenado, tapumes a improvisar um ou outro quarto, escadarias irregulares, vasos de flores encavalitados, um misto de roupa secar e um gato a esgueirar-se pelo telhado de zinco. A paisagem cimeira composta por poios de bananeiras, algumas vinhas e casas grandes e solarengas.
A casa havia sido uma herança de um avô e em tempos idos foi uma habitação para 15 famílias, mais respectivos filhos e outro agregado familiar.
Restaurada e reconstituída de novo, o seu interior é semelhante a uma caixa, com vários compartimentos todos ligados entre si, traduzindo uma verdadeira casa de família. Minimalista, mas com uma magnificência estonteante, nem o seu exterior contrasta com o restante bairro, branca de janelas verdes, com um jardim ainda por arranjar, mas com áreas dimensionais superiores às casas vizinhas. 
Logo à entrada temos uma cozinha num espaço aberto e amplo, com uma zona de arrumos e casa de banho. No primeiro andar encaixa-se a sala comum, seguindo um corredor encontramos com acesso por qualquer um dos lados da casa, o escritório, o quarto de vestir e as casas de banho, terminando ao fundo desse mesmo corredor com um quarto para cada filho. No segundo piso, o quarto do casal, suspenso, “open space”, sem barreiras e com vista sobre a sala comum.
Logo, logo, o mulherio estava todo a cochichar como seria a intimidade do casal, um espaço tão aberto, sem portas, nem cortinas. Chegamos à conclusão, de que tudo é uma questão de hábitos, cada um sabe gerir muito bem os seus espaços, proximidades e privacidade. Ela, com algum humor ainda ripostou “não grito muito”, mas percebemos claramente que aquele espaço não constitui obstáculo para nenhuma manifestação de prazer. Não são necessárias portas e janelas para separar e dividir um mundo e um espaço que é só deles.
Achei sobretudo uma casa bastante funcional e prática, despojada de utilitários dispensáveis, tapetes, cortinas, quadros, jarras de flores, bibelots, e outros adornos. Apenas nos quartos dos filhos havia varias molduras com fotografias, alguns desenhos dos miúdos feitos em crianças e uns post-its no quarto da filha, que obviamente não me atrevi a aproximar para ler.
À saída da casa e junto ao jardim uma pérgula coberta por um maracujazeiro, onde se encontra uma mesa grande e rectangular pronta para uma refeição no exterior. Ainda se seguiram umas tantas selfies e fotos de grupo junto ao varandim do jardim, directamente sobranceiro à baía.
Passava das 21 horas quando abri a porta da garagem e cheguei a casa. Tudo no seu perfeito sossego, ainda descrevi ao meu marido o que tinha acabado de ver, com a eloquência de uma criança a quem se oferece um presente.
Na minha memória guardei uma casa invulgar, uma recepção calorosa e despretensiosa pela anfitriã e uns momentos descontraídos e verdadeiramente prazerosos com alguns amigos.


27-05-15

Uma questão de atitude.

Uma questão de atitude. Iniciamos o percurso com um vento forte e frio, um pouco desagradável. Levamos com terra e poeira como se esti...