domingo, 31 de maio de 2015

Irmãos

Irmãos.
O calendário assinala hoje dia 31 de maio o dia dos irmãos. Lá em casa somos seis, 4 raparigas e 2 rapazes.
Não vou falar dos irmãos no que toca às suas personalidades e maneiras de ser, por uma razão óbvia, estamos todos cá e não quero ferir suscetibilidades, dando preferência a uns mais do que a outros. Vou então referir-me na generalidade e num contexto global.
Todos temos boas qualidades humanas porque fomos educados sobre valores bem diferenciados.
Cresci com eles, mais perto de uns, mais longe de outros. Partilhei desde criança, afetos, brincadeiras, cumplicidades, zangas e brigas.
Crescemos numa família onde o patriarca era a figura major. A matriarca sem ser uma pessoa apagada imponha-se pela sua presença elegante e reservada.
Sendo eu a mais nova, das raparigas, fui desde muito cedo uma menina mimada, mais acarinhada pelo pai, pelo facto de a mãe estar demasiado ocupada a cuidar de uma avó e de uma bisavó e ainda de um irmão mais novo, que desde a sua nascença requereu um pouco de mais atenção.
Ainda tenho todos os meus irmãos e com eles partilho momentos de família, comemorando algumas datas de festividade. Tenho normalmente mais ligação a uns do que a outros, atendendo á proximidade na forma de ser de cada um deles, não esquecendo que para tudo o que é preciso somos irmãos, filhos dos nossos pais, o mesmo sangue corre-nos nas veias.
A minha infância com os meus irmãos no que toca a brincadeira foi um pouco incomum, não brincamos muito, a diferença de idades não ajudou.
Lembro-me daquelas disputas banais, do lugar do sofá, do lugar à mesa, das tórridas discussões sobre quem arrumava a cozinha, dava cera no chão, puxava o lustro, lavava os tapassóis e as janelas ou regava as flores do jardim.
Lembro-me de sair à socapa com a roupa da irmã mais velha para o Liceu. O importante era fazer uma boa figura e levar roupa nova. De discutir com a minha irmã mais velha e dizer que não queria dormir com ela na mesma cama, (na época ela fazia um tratamento de pele para o acne na face e o creme que aplicava à noite cheirava mal).
Lembro-me de me incompatibilizar muito com o meu irmão mais velho, porque ele era um chato, um “engomadinho”, ia para o meu quarto tirar-me o secador e a escova de cabelo para se aprumar.
Lembro-me de sentir ciúme dos namorados das minhas irmãs, não que tivéssemos muita convivência entre nós, mas era menos tempo que elas estavam em casa e me faziam companhia.
Lembro-me de discussões tórridas com o meu irmão mais novo, cadeiras pelo ar, facas atiradas, até uma vez quase abrimos uma porta a meio. Eu como não consegui medir forças com ele, atirava as coisas, era a maneira mais prática que achei para me defender.
Ter irmãos para mim sempre significou partilha e companhia, partilha porque nas raparigas a roupa ia sempre rodando da mais velha até a terceira, graças a deus, como eu era a quarta e com uma diferença de 10 anos, fui uma sortuda nunca vindo a herdar essas peças. A minha roupa era sempre nova. Valeu-me essa essa pequena nuance.
Companhia, porque era inevitável, tínhamos dois quartos, um para as raparigas e outro para os rapazes. Companhia na mesa da cozinha quadrada, de madeira e com um tampo em fórmica vermelho. Companhia para me levar à escola, para fazer os trabalhos de casa, e alguma companhia do meu irmão mais novo para andar de bicicleta e brincar aos cowboys e aos polícias e aos ladrões.
A família é a primeira escola para a partilha, para a generosidade e para a solidariedade.
A família é isto, o primeiro espaço onde chegamos, mas não escolhemos.
Aos meus pais, que ainda nos fazem companhia, agradeço sobretudo os valores que nos transmitiram, a honestidade, o carácter e a coragem do pai, a sensibilidade a discrição e a doçura da mãe.

31.05.17



quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Casa Branca,

A Casa Branca,
No sábado passado estive no primeiro encontro regional de pedestreanismo. Iniciamos a caminhada na Encumeada, Fajã da Égua e Chão dos Louros. Terminado o evento os vários grupos de caminhantes reuniram-se no Chão dos Louros para confraternizar. Apelou-se à conservação dos trilhos, conservação das levadas e identificação de algum património. Numa região cuja fonte principal de receita é o turismo é inaceitável a apresentação dos nossos percursos e a degradação constante das nossas serras e montanhas.
Ao regressar ao Funchal fui convidada por uma colega do grupo para ir visitar a sua casa e tomar um copo, mesmo no final da tarde. A principio ainda recusei, alegando a hora ser tardia, mas depois convenceram-me e ainda bem que aceitei o convite.
Assim que cheguei á Casa Branca, uma casa no topo do Ilhéu de Câmara de Lobos, lembrei-me de um concerto ao luar que há uns anos atrás assisti naquele jardim com o grupo Madredeus, uma coisa quase surreal e mal entrei na casa pensei se o Churchill ainda fosse vivo talvez alguém o teria convidado para ali colocar o seu cavalete e desenhar a baía de Câmara de Lobos.
Abaixo da Casa Branca e aos lados um casario descoordenado, tapumes a improvisar um ou outro quarto, escadarias irregulares, vasos de flores encavalitados, um misto de roupa secar e um gato a esgueirar-se pelo telhado de zinco. A paisagem cimeira composta por poios de bananeiras, algumas vinhas e casas grandes e solarengas.
A casa havia sido uma herança de um avô e em tempos idos foi uma habitação para 15 famílias, mais respectivos filhos e outro agregado familiar.
Restaurada e reconstituída de novo, o seu interior é semelhante a uma caixa, com vários compartimentos todos ligados entre si, traduzindo uma verdadeira casa de família. Minimalista, mas com uma magnificência estonteante, nem o seu exterior contrasta com o restante bairro, branca de janelas verdes, com um jardim ainda por arranjar, mas com áreas dimensionais superiores às casas vizinhas. 
Logo à entrada temos uma cozinha num espaço aberto e amplo, com uma zona de arrumos e casa de banho. No primeiro andar encaixa-se a sala comum, seguindo um corredor encontramos com acesso por qualquer um dos lados da casa, o escritório, o quarto de vestir e as casas de banho, terminando ao fundo desse mesmo corredor com um quarto para cada filho. No segundo piso, o quarto do casal, suspenso, “open space”, sem barreiras e com vista sobre a sala comum.
Logo, logo, o mulherio estava todo a cochichar como seria a intimidade do casal, um espaço tão aberto, sem portas, nem cortinas. Chegamos à conclusão, de que tudo é uma questão de hábitos, cada um sabe gerir muito bem os seus espaços, proximidades e privacidade. Ela, com algum humor ainda ripostou “não grito muito”, mas percebemos claramente que aquele espaço não constitui obstáculo para nenhuma manifestação de prazer. Não são necessárias portas e janelas para separar e dividir um mundo e um espaço que é só deles.
Achei sobretudo uma casa bastante funcional e prática, despojada de utilitários dispensáveis, tapetes, cortinas, quadros, jarras de flores, bibelots, e outros adornos. Apenas nos quartos dos filhos havia varias molduras com fotografias, alguns desenhos dos miúdos feitos em crianças e uns post-its no quarto da filha, que obviamente não me atrevi a aproximar para ler.
À saída da casa e junto ao jardim uma pérgula coberta por um maracujazeiro, onde se encontra uma mesa grande e rectangular pronta para uma refeição no exterior. Ainda se seguiram umas tantas selfies e fotos de grupo junto ao varandim do jardim, directamente sobranceiro à baía.
Passava das 21 horas quando abri a porta da garagem e cheguei a casa. Tudo no seu perfeito sossego, ainda descrevi ao meu marido o que tinha acabado de ver, com a eloquência de uma criança a quem se oferece um presente.
Na minha memória guardei uma casa invulgar, uma recepção calorosa e despretensiosa pela anfitriã e uns momentos descontraídos e verdadeiramente prazerosos com alguns amigos.


27-05-15

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Jasmineiro.

Jasmineiro.
Esperava um ano inteiro para receber a prenda que ela mandava pelo meu pai. No dia 04 nunca houve um esquecimento, um atraso, uma falta ou um descuido. Foram sempre até hoje as saias e os vestidos mais bonitos que recebi. De veludo ou de bombazine muito fino, com motivos florais, raminhos verdes, com aplicações no peito, de patinhos, outros animais e até de um lago. É certo que depois tinha de fazer um telefonema a agradecer e responder àquelas perguntas “sim, tenho sido uma boa menina, sempre bem comportada, estudo e ajudo a mamã e não ralho com os manos e rezo à nossa senhora para me proteger….”.
Mais crescida, quando já sabia ler, passei a receber as Historias da Anita, e ao entrar na adolescência, o primeiro livro foi as “Mulherzinhas” da Loiuse May Alcott, Quero ser Feliz, e outras publicações das Irmãs Paulistas.
Ela viajava com alguma frequência e dos locais que visitava enviava sempre um postalinho, de Fátima, do Castelo de Tomar, de Guimarães, ou do Mosteiro da Batalha. Tinha a particularidade de contar um bocadinho da historia do local, assim, desde cedo também fui viajando, quer pelos livros, quer pelos postais.
Ela era uma senhora muito educada, culta, devota de Maria, gostava do mês de Maio, alias o filho, único filho fazia anos nesse mês, gostava muito de flores, em especial de rosas.
Faziam um casal simpático ela grande, ligeiramente anafadinha, muito sardenta, com uma cara bonita, fresca e com a pele muito branca. Ele baixinho, careca, com uns óculos pretos com um fundo de garrafa muito grande, sempre muito bem-disposto. Sentia-se que entre eles havia amor e muito respeito.
Em Maio era o mês da grande festa, o filho fazia anos, e todos os anos celebrava-se o aniversário com pompa e circunstância.
Tinha fotógrafo particular, passadeira vermelha, criados a servir com blazer branco e laço preto e na cozinha as empregadas preparavam tudo com o maior rigor.
Lembro-me muito bem da casa, uma entrada particular na Rua do Jasmineiro, no quintal à frente vários canteiros de rosas de todas as cores e feitios, à entrada um grande corredor terminava com a escada ao fundo para o segundo andar. À direita ficava a sala e sala de jantar, à esquerda 2 ou 3 quartos que a senhora habitualmente alugava a pessoas de muito respeito (professores ou inspectores das finanças), a seguir a cozinha e de seguida havia um grande salão onde eram feitas as festas de anos. Esse salão era transformado em discoteca e era aí que pela tarde e noite fora se divertiam os convidados.
Logo à entrada e depois de tirada a fotografia à família, passávamos à sala e íamos ver a mesa do bolo, o tema da festa, a decoração, às vezes o filho tocava piano para os convidados (julgo que quando era mais pequeno). Apareciam logo os criados com cup de fruta em tacinhas de vidro com pé alto e elegante, eu gostava daquele sabor das frutas com o sumo e o gás da água, acepipes, canapés vários, vitelinhos, empadinhas, rissóis e umas queijadas deliciosas que eram a receita especial da senhora.
Nestas saletas e no jardim, ficavam as pessoas mais velhas, os amigos do casal, família e outros conhecidos.
Lá ao fundo no salão decorria a dança, a festa com os mais jovens, onde eu “bicho do buraco”, morria de vergonha só em pensar entrar, rondava a casa do lado esquerdo do jardim e ponha-me à porta a espreitar, quando dava muito nas vistas, voltava para trás e entrava pela cozinha e ficava sentadinha num banco novamente a espreitar.
O que eu gostava mesmo era de ir pular e dançar como os outros, mas a timidez amputava-me as pernas e ali ficava com carinha de anjo ouvindo, e apenas ouvindo a música, as gargalhadas, as palmas, a folia e o divertimento que todos extravasavam sem preconceitos nenhuns.
Afinal eram todos jovens, todos da minha geração, todos novos, iguais a mim, entusiastas da vida e dos prazeres que dela retiramos.
Às vezes, e mesmo no meio de tanto trabalho e atenção que tinha de dar aos convidados, aparecia a minha madrinha, agarrava-me na mão e levava-me até ao centro do salão e dizia “então deixaram a Luisinha ali sozinha”, então, eu sentia o chão a fugir cada vez mais dos meus pés, a cara a fumegar, e pedia a todos os santinhos que me tirassem dali. Não sei quantas vezes na vida morri de vergonha, mas nestas festas, todos os anos morria de vergonha.
Hoje, agora, acho que já não morreria de vergonha, ou pelo menos deste tipo de vergonha. A vida foi-me trazendo um pouco mais de sal e os meus dias foram tendo mais cor e um sabor de rebeldia que pouco agradou ao meu pai.
 20.05.15


terça-feira, 5 de maio de 2015

Belgais.

Belgais.
Foi um convite para passar um fim de semana em Castelo Branco em Maio de 2004.
Visitamos o concelho, fomos à aldeia histórica na Serra da Gardunha - Castelo Novo, aldeia de casas senhoriais, casas em pedra, com varandas em madeira e restos de calçada romana. No alto ergue-se o castelo.
O fim de semana incluía um evento cultural no sábado ao final do dia, assistir a um concerto de Maria João Pires em Belgais.
Para chegar à herdade, percorremos um longo caminho de terra batida, com percursos de altos e baixos, entre oliveiras e eucaliptos.
A quinta é um oásis no deserto, tudo muito plano, uma casa térrea, com sala de concertos, estúdio de gravação, biblioteca e piscina. Com um estilo rústico, artesanal e acolhedor.
A Maria João desenvolveu um projecto de ensino artístico para jovens, músicos e artistas, que de início teve um excelente impacto, mais não fosse pela descentralização da cultura numa cidade do interior, mas mais tarde acabou por correr mal e em 2009 foi posto à venda.
Houve discórdias, e desentendimentos entre ministérios e apoios concedidos, houve arresto de bens e tudo terminou de uma forma abrupta quando a pianista saiu do pais e foi para o Brasil (em 2006). Por lá ficou a viver e pediu nacionalidade.
Impressionante como nós, portugueses, temos o condão de deixar escapar grandes artistas, pessoas de valor considerável, empobrecendo cada vez mais a nossa cultura. É caso para dizer “felizes dos que os recebem”.
O centro organizava concertos, palestras musicais, tinha oficinas para crianças e ainda um coro infantil. Enquanto sobreviveu dinamizou muito a zona de Castelo Branco.
Nós chegamos num fim de tarde, calmo, de temperatura amena, para assistir a um concerto à beira de uma piscina, decorada num ambiente de velas, flores, um por do sol avermelhado contrastando com o marron da terra, assim algo bem-parecido a um estilo marroquino.
Foi calmo e intenso, cheio e sereno, viemos mais tarde a jantar num restaurante da zona, aprazível e sossegado, completando assim um fim de semana cultural a cortar a rotina de um ilhéu.

05.05.15


quinta-feira, 30 de abril de 2015

O 1º de Maio,

O 1º de Maio,
O meu pai nunca foi pessoa de comemorar estas datas festivas, nem o 25 de Abril, nem o 1º de Maio, mas quando éramos pequenos tenho recordações de fazermos piqueniques com os compadres e amigos dos meus pais.
O motorista levava a carrinha da Manteigaria Zarco, mas como a serra nesse dia estava cheia de gente e a minha mãe não gostava de confusões íamos para uma quinta dos Rocha Machado ou para a Fabrica de Manteiga da Fajã da Ovelha.
O primeiro de Maio vem das lutas sindicais iniciadas em Chicago por volta de 1886, cujo objectivo era reivindicar a redução da jornada de trabalho para as 8 horas.
Em Portugal este dia só veio a ser livremente comemorado depois de Abril de 1974, passando a ser considerado como um feriado. O dia mundial do trabalhador é comemorado com manifestações, comícios, festas de carácter reivindicativo. Na Madeira é um dia onde a população costuma organizar piqueniques, excursões, fazem-se uns colares especiais com umas flores amarelas, designados como “os colares de maio”.
Neste dia, e apenas quando éramos crianças, na serra reuníamos com os nossos amigos, jogávamos à bola, à pilhagem e às escondidas. Levávamos a comida já pronta, um farnel bem composto, atum cozido ou de escabeche, batatas com casca, feijão cozido com casca, frango assado, carne assada, rissóis, croquetes, bolo de laranja, pão de casa, vinho e laranjada. O meu pai não se esquecia de levar um rádio para ouvir o relato da bola.
Estendia-se uma grande toalha no chão, sempre debaixo de uma árvore com uma boa sombra, distribuía-se a comida e íamos comendo calmamente. A seguir ao almoço os homens e as senhoras dormiam sempre uma sesta.
Enquanto as minhas sobrinhas ainda (os) foram pequenas repetíamos estes passeios, já depois de crescidas veio a perder-se a tradição e nunca mais voltamos a fazer os piqueniques do 1º de Maio.
Agora a data é comemorada com um dia de ausência nas nossas funções e tarefas laborais e se a temperatura já permitir aproveitamos para fazer um dia de praia, ou deleitar-nos com outros prazeres da vida.
A geração dos meus filhos não chegou a assistir nem a participar nestas festas populares, hoje eles vivem muito os arraiais/festas religiosas e as americanices do Halloween.


30-04-15

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Revolução e proibições de casa,

Revolução e proibições de casa,
Lá em casa não se falava muito em política, o meu pai tinha as suas orientações bem definidas, e não permitia dar muita vazão a espaços de tertúlia sobre o estado do país ou do regime em que se vivia.
Sei apenas que tive um avô, curiosamente do lado paterno, que era um individuo extremamente honesto e defensor dos direitos humanos.
Sei que chegava a nossa casa, escutava bem baixinho (porque era proibido) notícias que alguns portugueses exilados no estrangeiro, transmitiam em programas de rádio em onda curta, com o fim de sensibilizar os ouvintes para combater a ditadura. Sintonizava as estações de rádio para as emissões a partir de Moscovo e de Argel.
Era um homem culto e interessado pelo mundo, julgo que, com uma atitude perante a vida mais além do que a rotina de cozinheiro em casa de uma família inglesa lhe poderia permitir. Lamentavelmente não cheguei a privar com ele, morreu precocemente de cancro no pulmão.
O meu pai ia acompanhando as notícias pela TV, pela comunicação e por uns tantos amigos, que viviam em Lisboa e de vez em quando regressavam à região. A preocupação dele era porque tinha, na altura, uma filha a estudar em Lisboa.
Para ele o ambiente de revolução, rebeldia, não lhe transmitia a segurança que ele pretendia. Naqueles dias de Abril, proibiu a minha irmã de ir para a faculdade, “nada de andar pelas ruas”, “nada de participar em manifestações, nem de opinar contra o regime”. Ia sabendo novidades também através de um sobrinho dele, mais velho que a minha irmã, já alguns anos instalado na capital. A norma era, “controla-me essa rapariga”.
E no dia da Revolução, só me lembro do meu pai ter-me enviado para Santa Cruz para passar o fim de semana em casa das tias. O 25 de Abril foi um dia marcante para mim, tinha onze anos, tinha entrado na pré-adolescência e queria assistir a tudo pela televisão.
As tropas, a revolução, o povo na rua, os cravos, os tanques na avenida da liberdade, o Quartel do Carmo, as imagens eram eloquentes, e as musicas, “Grândola Vila Morena”, “E depois do Adeus”, Vejam bem “, “Eles comem tudo”.
Passei a ouvir meio clandestinamente, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Pedro Barroso, e a ler poemas de Ary dos Santos, Adriano Correia de Oliveira e António Gedeão. Todos estes cantores, poetas e escritores de intervenção causava-me um fascínio indescritível, talvez por ser o proibido, talvez por o meu pai não permitir ouvir este tipo de música em casa, sei lá, ainda hoje não fico indiferente a nenhuma destas canções.
Lamento não ter apanhado a Revolução numa fase mais crescida, pois com 11 anos, ainda andava muito concentrada em mim, a saber se ia crescer mais, se o cabelo ia ficar louro, se teria roupa nova para levar no dia seguinte à escola, ou mais quanto tempo teria de esperar para ter um namorado e sair à noite, aprender a dançar, ir para a praia e ficar morena com sardas a salpicar pela cara, ter tempo para ver as séries da TV e andar de bicicleta.
Mais tarde e ainda nas proibições da casa, e do país, o meu irmão apareceu com discos que se fartaram de tocar no nosso gira discos, o “Je taime moi non plus”, o Emanuelle, o álbum do Jesus Cristo Superstar e o Bolero de Ravel (que o meu pai detestava). O meu irmão como era mais velho e já tinha os seus amigos, fechava a porta da sala e às escuras fazia lá a sua sessão de discoteca, criava cenários, e claro, proibia-me de lá entrar.
Era nessas alturas que eu sentia vontade de ser mais crescida, os amigos dele eram todos giros, mas eu não passava de uma miúda, irrequieta e ainda por cima metediça.
Não passava da porta, mas também não saía do degrau das escadas, mesmo ao lado.
Nada podia ver mas ouvia tudo.

24-04-15

terça-feira, 14 de abril de 2015

Descendo e subindo a rua,

Descendo e subindo a rua,
Desci e subi a rua a pé durante uma série de anos. A rua ficava entre a Rua da Torrinha (rua que tinha casas grandes e algumas quintas) e a Rua do Til, (rua muito grande e com bastante movimento de viaturas). Eu vivia na rua da Carne Azeda, feia, estreita, escura, velha, mal cheirosa e pouco iluminada. Era uma rua de casas velhas, antigas, hoje mantém-se quase todas, algumas remodeladas, outras deram origem a prédios de apartamentos.
As casas eram de gente de trabalho, pessoas humildes, muitas de aluguer. Casas bonitas e grandes nem chegavam a uma mão cheia, pertencentes a famílias com algum poder económico. Logo no início havia uma que atravessava toda a rua até o Torreão, outra com um grande terreno mesmo junto ao Engenho do Winton, a seguir a casa dos meus amigos de  infância onde brincava todos os dias, tão grande que chegava à rua do Til, acima mais umas duas com raiz do chão, primeiro andar e quintal à volta.
A rua não me enchia de orgulho, muito pelo contrário tinha um certo receio de a subir e descer sozinha, sobretudo naqueles dias pequenos e escuros de inverno. Passavam poucas pessoas, muitos velhos, pedintes, e uns homens esquisitos e estranhos que às vezes se escondiam por detrás dos carros. A iluminação pública até há poucos anos era com postes de madeira e candeeiros que iluminavam muito pouco. Tudo isto não me trazia confiança nenhuma, mas subir o lado oposto, o da Rua do Til, o trajecto era mais longo.
Em baixo mesmo no início da minha rua, existia uma fábrica, mais tarde oficina, era um prédio muito grande, alto e de nada valia à estética, ao lado o ribeiro, que acompanhava o engenho do Winton. Era interessante ver a labuta dos homens com os carros apinhados de cana-de-açúcar e o fumo a sair das chaminés. Eu não me lembro, mas as minhas irmãs recordam-se do incêndio no engenho e dizem que o quintal da nossa casa ficou cheio de cinzas e o nosso pai mandou-nos sair para casa de um vizinho mais acima, talvez para ficarmos mais protegidas.
Naquela rua vivia um senhor que tinha um carro grande antigo, tipo táxi, circulava na cidade para transportar turistas, vivia numa casa, igual a mais 4 ou 5, pareciam casas de bairro. A esposa dele e uma cunhada (irmã da mulher) passavam o tempo à janela e quando eu vinha da escola, falavam sempre comigo, perguntavam como estava a mamã e o papá, como iam os estudos, aquela conversa de circunstância.
Havia também um senhor José, de nome, que era carpinteiro, tinha uma loja, onde fazia os seus biscates, mais para cima havia uma mercearia, hoje transformada em bar/tasca. Em criança muitas vezes cheguei a ir à mercearia, comprar coisas de ultima hora, sal, açúcar, farinha, ovos, massa ou arroz.
Sempre foi uma rua com alguma dificuldade para estacionar os carros, hoje a rua tem um sentido só, descendente.
Naquela rua e nas artérias circundantes, Rua do Til e D. João, tínhamos os nossos vizinhos amigos, viviam todos por ali. Eu não tinha muitos, mas o meu irmão tinha um grupo do pior. Fartavam-se de bater à campainha assediando-o para brincadeiras que os comprometiam. Cada um pior que o outro, hoje, ainda considerados “peças de museu inconfundíveis”, irrequietos, rebeldes adolescentes, tiranos e inconsequentes, por vezes nas atitudes que tomavam. Eu não tinha medo deles, enfrentava-os todos, quando batiam á porta, dizia logo que o meu irmão estava a dormir, mas eles faziam-se entender por códigos, assobios, toques e buzinas de motas, etc. Eu dizia que os amigos do meu irmão eram desaconselháveis e que só o levavam para maus caminhos ou melhor, desencaminhavam-no.
Havia também um rapaz que que não largava a campainha da nossa porta, para fazer queixa ao meu pai do meu irmão e dos amigos dele. A bem dizer o rapaz tinha um índice cognitivo muito abaixo do normal e uns trejeitos efeminados, obviamente era motivo de chacota para o grupo. Até o meu pai se ria da situação, claro, sem dar a entender, um dia ouvi-o dizer “o rapaz também se poe a jeito”. Suponho que a figura ainda hoje existe, caricato, vagueava pelas ruas da cidade, implicando com todas as pessoas e exibindo uma verborreia escandalosa, sem mais nem quê. Era cliente assíduo das urgências do Hospital, de todas as igrejas da cidade e dos autocarros que subiam a Rua do Til.
Na travessa do Anselmo havia uma serie de casas em banda, todas iguais, só divergiam na cor das paredes, das portas e das janelas.
Durante muitos anos à frente da minha casa, existiu uma fazenda grande e havia uma entrada do nosso quintal que dava directamente para lá. Quando éramos pequenos íamos brincar, colher anonas e espiar o levadeiro.
Por aquela rua passaram uma série de figuras, que hoje deixaram de circular, o leiteiro, o amola tesouras e o padeiro.
Hoje a rua continua quase exactamente igual, não fosse os técnicos camarários terem asfaltado o caminho que antes era empedrado.

17-04-15

Uma questão de atitude.

Uma questão de atitude. Iniciamos o percurso com um vento forte e frio, um pouco desagradável. Levamos com terra e poeira como se esti...